segunda-feira, 9 de outubro de 2017

[Resenha] Kindred: Laços de Sangue, Octavia E. Butler

Título: Kindred: Laços de Sangue
Autora: Octavia E. Butler
Editora: Morro Branco (cortesia)
Páginas: 448
Onde comprar: Capa dura | Capa comum 

“Comecei a escrever sobre poder, porque era algo que eu tinha muito pouco.”

Kindred nos apresenta à história de Dana, uma jovem negra de 26 anos casada com um homem branco, Kevin, e bastante feliz com sua vida. O casal está se mudando para um novo apartamento e, em meio a pilhas de livros, Dana começa a se sentir tonta e cai de joelhos nauseada. Seu mundo, nesse momento, é destruído.

Ao abrir os olhos, ela se vê à beira de uma floresta próxima a um rio. Uma criança está se afogando e ela corre para salvá-la. Após salvar essa jovem criança, ela se vê na mira de uma espingarda e, num piscar de olhos, está de volta ao seu apartamento. Kevin está assustado, porque sua esposa, antes seca e próxima dele, está do outro lado da sala, encharcada e suja de lama. O pior: essa tontura e viagem acontece de novo e de novo...
O lugar para onde Dana foi transportada é Maryland na pré-Guerra Civil, no século XIX, um lugar bastante perigoso para uma mulher negra, o que traz, ainda mais, a consciência de como sua vida seria diferente se tivesse vivido nessa época. 
“A possibilidade de encontrar um adulto branco me assustava mais do que a possibilidade de enfrentar a violência humana da minha época.”

Estou tentando encontrar palavras para expressar o que senti ao ler esse livro. O encanto por ele foi construído aos poucos. Meu primeiro contato com ele foi quando soube que a Morro Branco o lançaria, então, me deparei com a capa – maravilhosa! Em seguida, li a sinopse e pensei: que história louca, mas reflexiva. Aí o livro chegou e está lindo! Foi impossível não começar a ler imediatamente e, mais impossível ainda, parar de ler.


Na contracapa temos uma frase dos Los Angeles Herald-Examiner que diz: “Impossível terminar de ler Kindred sem se sentir mudado. É uma obra de arte dilaceradora, com muito a dizer sobre o amor, o ódio, a escravidão e os dilemas raciais, ontem e hoje”. E, bem, você precisa ter em mente que esse livro vai te mudar
“(...) Era muito fácil aconselhar as outras pessoas a viverem com sua dor.”

A história, como disse acima, gira em torno de Dana, uma jovem negra que começa a viajar no tempo e descobre como era viver nos Estados Unidos na época da escravidão. Ela é negra, portanto, é escrava. Ela é mulher, portanto, pode ser usada por homens e é incapaz. Esses eram pensamentos de brancos na época. Os negros eram a escória da sociedade. Eles não eram importantes, estavam ali para servir e estavam ali porque eram seres inferiores. Dana, assim como nós, conhece a história, mas ela não a viveu. E essas viagens a fazem viver. 
"(...) Vire algumas páginas e encontrará um homem branco chamado J.D.B. DeBow dizendo que a escravidão é boa porque, entre outras coisas, ela dá aos brancos pobres alguém a quem menosprezar."

O motivo para Dana fazer essas viagens pode ser um spoiler, então, não vou divulga-lo para não estragar a surpresa. Mas vou dizer que a escolha que Octavia fez, para dar esse choque de realidade em Dana, me deixou embasbacada e satisfeita com todo o desenrolar da história.

Todos os personagens desse livro são peças fundamentais para a construção de toda a história, seja por trazerem uma reviravolta enorme para a trama ou por mostrar um senso crítico e dar o choque de realidade que precisamos. Mas Dana, narrando tudo em primeira pessoa, faz o leitor ficar mais próximo da história, mais ciente de seus medos e sentindo medo também. Ela é uma negra, ok, mas ela é livre, por que seria mantida presa? Voltamos ao que sabemos da história: negros eram a escória da humanidade. 
“(...) uma negra para cuidar dele que via os negros como sub-humanos, uma mulher para cuidar dele que via as mulheres como eternas incapazes.”

Kevin foi um personagem ambíguo para mim, teve momentos que o amei por tudo que ele representava para Dana e como ele aceitava, mas tiveram momentos que o detestei, pois pareceu “fácil” para ele aceitar o que estava acontecendo. Mas, apesar disso, num modo geral, é impossível não amar Kevin e todos os outros personagens de todo coração.

Quando estava ainda na metade de Kindred, disse algo para minha mãe: Esse livro será favorito da vida e vou querer reler muito em breve. E, ao fechá-lo definitivamente, eu me apaixonei e quis recomeçar a leitura imediatamente, pois ele me deixou órfã.


Kindred é uma leitura essencial, seja você homem, mulher, jovem, adulto, velho, branco ou negro. Ele faz você pensar, refletir sobre a vida, sobre a existência e escolhas humanas, sobre tudo o que aconteceu com as pessoas no nosso mundo e sobre tudo o que ainda acontece. Sobre o que nós, mulheres, sofremos todos os dias, sobre nosso medo de andar no escuro, sobre temer 100% do tempo, porque a sensação de segurança é nula. Se você aceitar uma recomendação minha, recomendo que compre e leia Kindred, reflita e indique esse livro para o máximo de pessoas que conseguir. 
“(...) Talvez você tenha razão – disse. – Espero que tenha. Talvez eu seja só uma vítima de roubo, estupro ou algo assim... Uma vítima que sobrevive, mas não se sente mais segura. – Dei de ombros. – Não sei explicar o que aconteceu comigo, mas não me sinto mais segura.”

Classificação:

15 comentários:

  1. Tenho que dizer que a base da trama me agrada muito, mas essa mistura de ser transportada para outra época me assusta, parece fugir da proposta. Por outro posso ver uma ótima maneira de mostrar a diferença entre épocas em relação a preconceito. Não sei, mas adoraria ler e tirar minhas conclusões.

    Beijos.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/

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  2. Oiee Bruna ^^
    Acabei de passar pelo post em que você menciona o lançamento deste livro, e de alguma forma sabia que ele seria favoritado. Impossível não ser, não é mesmo? Eu que nem o li já me sinto mudada depois da sua resenha. Não faz muito tempo, li o livro "O caminho de casa", que conta a história de 7 gerações de uma família, que em um ponto da história vão parar nos EUA na época da escravidão. É de tirar o fôlego.
    Livros que nos deixam órfãs são os melhores, não são? ♥ A edição está linda pelas fotos, estou doida para ler também.
    MilkMilks ♥
    http://shakedepalavras.blogspot.com.br

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  3. Oi Bruna!!

    Tudo bem? Achei a premissa do livro muito interessante: voltar no tempo para a época da escravidão. Não é o enredo mais leve e divertido, mas acho que histórias assim servem para nos conscientizar das mazelas e dores que temos na nossa história e como de jeito nenhum podemos olhar para outra pessoa e enxergar algo menos que um universo inteiro nela já que não podemos saber o que ela carrega dentro de si.

    Acho que com este tipo de livro podemos entender melhor a questão do preconceito tão arraigado em nossa cultura, mesmo que o livro não se passe no Brasil. Amo do fundo da minha alma essa questão do choque de realidade que você mencionou e mesmo que não tivesse tecido outros elogios a obra eu teria sido convencida a ler bem ali.

    Beijinhos - Jessie
    www.paraisoliterario.com

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  4. Oi Bru!!!

    A premissa de voltar no tempo sem querer não é novidade dentro da literatura, o cenário é que me deixou realmente interessada nessa história. Voltar no tempo para uma época tão perigosa quanto o século XIX nos faz compreender o quanto o nosso passado recente (porque não da pra chamar isso de distante na minha opinião) é perigoso, como a descriminação por conta de algo tão trivial quanto a cor da pele é absurda.

    Livros como Laços de Sangue servem para nos dar um choque de realidade, pra nos fazer parar e repensar atitudes mesquinhas e ver como o ser humano tem que melhorar (apesar de em comparação com a época estarmos um pouco melhor). Alguns autores tem o dom de escrever histórias com as quais podemos aprender e nos aperfeiçoar, acredito que a Octavia seguiu por este caminho.

    Beijos - Aninha
    www.paraisoliterario.com

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  5. Oi Bruna!

    Eu não conhecia o livro, mas fiquei MUITO interessada nele. Achei interessante ela voltar no tempo e ver tudo que ela passa/passaria de tivesse vivido naquela época. E simplesmente por ser negra... Isso é muito triste!
    Deve ser uma história triste, mas nesse momento que o mundo está passando, talvez seja necessário as pessoas lerem.
    Adorei a dica!
    Bjss

    http://umolhardeestrangeiro.blogspot.com.br/

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  6. Oi.

    Depois de ler esta semana um livro que fala sobre racismo e preconceito, fiquei super interessada nesse livro. Gosto muito de livros sobre viagens no tempo e até hoje nunca tinha visto nada do tipo desse livro. Percebi que a narrativa da obra é maravilhosa pela sua resenha. Vou anotar com certeza a dica é ler assim que possível.

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  7. GENTE, QUE LIVRO LINDO!
    Eu quero muito conferir, pois sou apaixonada por Outlander e isso me lembrou bastante dessa obra, então já quero MUITO. A capa é mesmo linda, e eu quero muito saber das aventuras dessa mulher nessas épocas difíceis.

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  8. Talvez a capa não me chamasse tanta atenção quanto chamou a sua, mas o conteúdo, o enredo e a pertinência desta leitura me deixaram muito curiosa. Acho que é um livro que vai agregar muito.
    Dica anotada.
    Meu Amor Pelos Livros
    Beijos

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  9. Terminei sua resenha suspirando! Que capa maravilhosa, que história linda! Questões raciais sempre me deixam muito emotiva, é incrivel como o ser humano consegue ser cruel, ver isso narrado em primeira pessoa consegue ser mais viceral ainda, estou morrendo de vontade de ler mas não sei se daria conta.

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  10. Oie!

    Essa é a primeira resenha sobre essa obra que leio, e por mais que tenha uma proposta muito interessante, ela não despertou minha curiosidade, sigo uma outra linha de leitura completamente diferente dessa, mas irei indicar para uma amiga, ela com certeza irá gostar da leitura!

    Bjss

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  11. Nossa, Bruna. Que resenha foi essa!
    Não conhecia o livro e para mim, a capa não foi tão chamativa, mas a sua resenha, me envolveu completamente para saber mais sobre a obra e tudo o que ela desperta. Com todos os conflitos e opiniões que devem ser expressadas de maneira ímpar durante a narrativa, já consigo sentir a euforia da leitura. Adorei sua dica e já anotei aqui.
    Bjim!
    Tammy

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  12. Oi, Bru

    Menina, finalmente essa resenha! Lembro da sua postagem de divulgação e lembro também que fiquei meio em cima do muro, mas agora EU QUERO ESSE LIVRO!
    Fiquei super curiosa para saber o motivo das viagens e fiquei aqui imaginando como deveria ser pra ela vivenciar uma época em que seu povo era tão subjugado e maltratado. E naquela parte em que você fala que ela poder ser usada... argh!
    Só sei que quero esse livro, tomara que ele entre em oferta na Black Friday, pois esse ano será a última vez que comprarei livros! Rss

    Beijocas

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  13. Olá Bru, tudo bom?
    Bem, e se eu disser que me apaixonei por esse livro lendo só sua resenha, é possível? rs Já tinha visto essa capa por aí e já havia chamado minha atenção, mas, saber do que se trata a história, a forma como ela marca e muda o leitor, bem, preciso desse livro para ontem! Fiquei curiosa para saber o motivo das viagens e mais ainda pela narrativa de tudo que a personagem vivenciou e passou "graças" a elas. Enfim! Amei muito sua resenha e já coloquei o livro na lista de desejados ♥
    Beijos!

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  14. Estou realmente apaixonada pela ideia de ler esse livro! <3

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  15. Olá,

    Já no primeiro quote que você colocou na resenha, esse livro já capturou minha atenção. Estou vendo muitas pessoas elogiando a obra e a curiosidade está a mil, quero muito saber o que agrada a tantos leitores. A temática desse livro tem se feito muito presente em minha vida, para onde olho tem um livro desse estilo, e acho que isso é um sinal. Dica anotada!

    Beijos,
    oculoselivrosblog.blogspot.com.br/

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